Uma ditadura austera com um final surreal

Ao contrário de Franco em Espanha, Salazar não precisou de uma guerra para chegar ao poder em Portugal. A sua habilidade com os números e uma profunda compreensão da alma portuguesa foram suficientes para governar o país, com terror ‘sutil’, durante quase quatro décadas, até ao seu final surreal.

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Eu li A incrível história de António Salazar, o ditador que morreu duas vezesdo escritor italiano Quadro FerrariComo um livro de aventura. Tem momentos dramáticos, alguns familiares —Francisco Franco flutua através de suas páginas – e outros surrealistas. A minha leitura coincide com a última eleição geral em Portugal, antecipado devido ao crescente desacordo entre a esquerda portuguesa. Seja qual for o resultado – mesmo com a ascensão da extrema direita na chega—, o país hoje presidido pelo Prof. Marcelo Rebelo de Sousa Não é nada como o Estado Novo de Salazar.

Não existem dois países iguais ou dois ditadores idênticos. Ferrari nos alerta para isso, dedicando boa parte do livro a analisar a relação entre Franco e Salazar, destacando sua ideologia comum e seus diferentes personagens. Ele conclui que eles eram “amigos forçados”. Ambos se sentiram “investidos em uma missão maior para acabar com o caos e a ruína, combatendo o extremismo e o comunismo”.

Independentemente das diferenças políticas e econômicas daqueles regimes vizinhos, o escritor nos oferece momentos de brincadeiras frívolas, que são apreciadas, analisando a aparência e a vestimenta de ambos os líderes. “Salazar usava ternos de estilo inglês com gravata ou gravata borboleta e um chapéu virado para baixo. Ele tinha um olhar altivo e lábios finos. Franco era mais baixo, gordinho, usava capas militares volumosas e uniformes com flâmulas e medalhas no peito.

O português, embora filho de uma família de lavradores do Vimieiro, era “académico, professor universitário e ex-seminarista”. No que diz respeito ao espanhol, salienta, “tinha sido um estudante medíocre e tinha uma mentalidade militar”. Salazar foi professor de Economia Política e Finanças na Universidade de Coimbra. Entre 1920 e 1928, Portugal tinha entrado num “longo processo de instabilidade, incluindo golpes militares, oito presidentes, 45 governos, 38 primeiros-ministros e um Conselho Constitucional”. Em uma tentativa extrema de salvar o que restava da República, os notáveis ​​do país chegaram a um compromisso. Formaram um governo com Salazar como ministro das Finanças. Não demorou muito para que conquistasse a confiança dos militares, que aceitaram a criação de um Estado à medida do novo líder, o Estado Novo. Em julho de 1932 já era primeiro-ministro, e assim foi até 1968.

Em 1940 foi premiado com causa honorária pela Universidade de Oxford. Declarar-se fascista, e já ter aprovado o Estado Novo, não foi obstáculo ao reconhecimento académico britânico. O militar Franco havia lutado na África e era comandante de um dos terços da Legião. Sua intervenção foi decisiva para que o golpe realizado por uma parte do Exército em 1936 se transformasse em uma sangrenta guerra civil.

o ditador austero

Salazar, embora tenha sempre reforçado e apoiado a PIDE (a polícia encarregada da repressão política), realizou um terror mais “sutil”. A repressão concentrou-se nos comunistas e anticolonialistas. Mas a maior diferença entre as duas ditaduras foi a Guerra Civil Espanhola. Salazar não precisava de uma guerra para chegar ao poder, bastavam a sua capacidade com os números e um profundo conhecimento da alma portuguesa. Foi um homem austero até ao limite (Portugal foi o único país que devolveu todos os créditos do plano Marshall) e morreu tão humildemente como nasceu, sepultado no cemitério da sua cidade, junto aos pais e debaixo de uma pedra sem nome, como ele havia estipulado.

A eclosão da Segunda Guerra Mundial aproximou os dois senhores da guerra ibéricos, embora nenhum deles gostasse de viajar. As poucas vezes (sete) que se encontraram foram para chegar a acordos que impedissem qualquer um de seus países de entrar na guerra e, por sua vez, garantiriam a boa vizinhança. Essa “amizade forçada”, como definiu Ferrari, foi cercada de poucas palavras e de certa ambiguidade. Tudo muito galego. Cada um teve suas razões para acabar assinando o Pacto Ibérico de 1942, “um tratado de não agressão e respeito entre ambas as partes”.

Do lado espanhol, Franco temia que a Grã-Bretanha usasse Gibraltar, o Atlântico e suas boas relações históricas com Portugal para invadir a península. Portugal temia que o possível apoio de Franco à Alemanha colocasse em risco seus mais de mil quilômetros de fronteiras terrestres com a Espanha. Sobre os nossos países paira sempre, ameaçador, o federalismo ibérico ou o desejo de anexação.

«A eclosão da Segunda Guerra Mundial aproximou os dois senhores da guerra ibéricos, embora nenhum deles gostasse de viajar. As poucas vezes (sete) que se encontraram foram para chegar a acordos que impedissem a entrada de qualquer um dos seus países na guerra e, por sua vez, assegurassem a boa vizinhança»

A partir de 1961 — com a eclosão da luta de libertação em Angola— aumento dos gastos militares nas colônias; os portugueses, especialmente os mais humildes, viram como seus filhos foram levados para a guerra. o mili quatro anos obrigatórios foi a cereja do bolo que, alguns anos depois, levantou os militares contra a ditadura. A essa altura, naquele 25 de abril da Revolução de 1974, Salazar já havia morrido duas vezes.

A explicação detalhada desta dupla morte é o surrealismo luso. Salazar – que passou o verão no seu estimado Forte de Santo António da Barra, no Estoril – estava à espera do seu callista para preparar os utensílios para curar os seus joanetes quando se sentou numa cadeira dobrável, que se inclinou e o deixou cair. Ele bateu a cabeça com força. Sua fiel governanta Dona Maria veio em seu socorro. Apesar da dor de cabeça constante, ele não queria ser internado em um hospital. Era julho de 1968 e o presidente tinha 79 anos. Coisas da vida e de Portugal, acabou por ser operado de um hematoma intracraniano por um cirurgião anti-salazarista.

Começou a perder a memória e o Conselho de Estado, sob a presidência de SOUetom ricoás, propôs exonerar Salazar das suas funções. Ele ainda estava em coma, no quarto 68 do hospital da Cruz Vermelha, quando foi nomeado Marcelo Caetano para presidir ao Conselho de Ministros. O ditador caiu em si, mas ninguém se atreveu a dizer-lhe que já não governava Portugal. Recebeu alta em fevereiro de 1969 e voltou ao forte, onde a primeira coisa que fez foi pedir os jornais. Ela era uma amante da informação e lia em diferentes idiomas.

A censura funcionou mesmo com o ditador. Todas as noites, o diretor do Jornal de notícias acompanhado pelo tipógrafo-chefe, ficou encarregado de preparar uma única cópia para o ditador. Nele, todas as notícias que mencionavam o novo primeiro-ministro eram encobertas por publicidade. Meses depois, o jornal francês EU’aurora, enviou um jornalista para investigar o estado do líder português. Ele conseguiu, sem nenhum problema, entrevistar Salazar. E este foi o que ele intitulou: “Salazar acredita que ainda governa seu país”. Os únicos três exemplares do diário que chegaram a Lisboa foram destruídos.

O ditador deu seu último suspiro em julho de 1970. Após sua segunda e última morte, um funeral para o chefe de Estado foi realizado no Mosteiro dos Jerónimos. Na Espanha ninguém se atreveu a remover Franco. Portugal e Espanha têm dois ditadores em comum ao mesmo tempo, mas como Ferrari explica em seu interessante livro, eles eram muito diferentes.

Calvin Clayton

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