Portugal, país de baixos salários ameaçado pela inflação | Economia

A recusa do governo socialista português em promover aumentos salariais para “não alimentar a espiral inflacionária”, com um IPC que ultrapassa os 7%, traz mais uma vez à tona um dos problemas estruturais que a economia local não consegue ultrapassar: Portugal está um país de baixos salários.

Com o maior aumento de preços desde 1993 (7,2% em abril), António Costa foi claro: “Não vamos entrar na ilusão de que o poder de compra aumenta e a inflação só se combate com aumentos de rendimentos”.

O socialista encontrou um aliado em Mário Centeno, que foi seu ministro das Finanças e agora ocupa o cargo de governador do Banco de Portugal, e que esta semana apelou à “prudência” com os aumentos salariais.

Mas os especialistas consultados pela EFE concordam que esta política vai levar a uma perda real do poder de compra dos portugueses num país, dizem, onde os salários já são baixos.

A remuneração média mensal bruta por trabalhador ascendeu a 1.361 euros em 2021, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Na Europa, Portugal está a afastar-se dos seus vizinhos do flanco ocidental e está cada vez mais alinhado com o Leste: é o sexto país dos Vinte e sete com o salário médio mensal mais baixo, apenas à frente da Letónia, Polónia, Lituânia, Hungria, Roménia e Bulgária, observa Eurostat.

“Na Irlanda ganha-se o dobro e em Espanha 50% mais”, reclamou recentemente o banqueiro português António Horta Osório numa conferência, na qual qualificou a situação como “dramática”.

PESO CRESCENTE DO SALÁRIO MÍNIMO

Portugal deverá estar mais próximo de países como Espanha dado o nível de interligação entre as duas economias, disse à EFE o economista José Reis, da Universidade de Coimbra, explicando que “os salários médios são baixos em comparação com outros países e têm vindo a aproximar-se cada vez mais de O salário mínimo.

Desde que assumiram o cargo, os socialistas optaram por uma política de melhoria do salário mínimo, que passou de 505 para 705 euros entre 2015 e 2022, um aumento de quase 40%.

Mas este aumento não foi transferido para as restantes remunerações e, segundo um relatório recente do INE, nos últimos sete anos o salário médio cresceu apenas 16%.

“O Governo tem tido muito sucesso no aumento do salário mínimo, mas cria-se um desequilíbrio crescente com o salário médio”, concorda o economista Pedro Martins, da Nova SBE, que considera ser uma estratégia “muito incompleta” e é necessário aumentar a produtividade e melhorar os serviços públicos.

Ele também alerta que a situação vai piorar se os salários não acompanharem a inflação: “Haverá uma perda de desempenho real para os trabalhadores”, garante à EFE.

E as medidas anunciadas pelo Governo para combater a inflação, como a redução dos impostos sobre os combustíveis, “não são suficientes” para evitar a perda salarial, alerta José Reis.

“Em termos reais, os salários em Portugal vão ser ainda mais baixos do que noutros países”, avisa.

O semanário português “Expresso” alertou esta semana que a queda real dos salários este ano será a maior registada em Portugal desde os tempos da troika (2011-2014).

PERDAS EM OFICIAIS

Quem já começou a notar o impacto são os servidores públicos, cujos salários foram atualizados em 0,9% em 2021, quatro décimos abaixo da inflação.

“É mais um ano em que os trabalhadores da Administração Pública vão perder com esta política de baixos salários e contenção salarial”, lamenta à EFE o secretário-geral da Federação dos Sindicatos da Administração Pública (FESAP), José Abraão.

O dirigente do sindicato, ligado à UGT -de tendência socialista-, alerta que os trabalhadores “têm dificuldades em compreender” por que razão o Governo ainda não está empenhado em aumentar os salários, pois afirma que é sua vontade nesta legislatura.

“Era importante que o Governo pudesse a partir deste momento dar um sinal de que é um compromisso que é levado a sério”, afirma.

Para já, o Executivo já os avisou que este ano não haverá novos aumentos salariais.

Próximo ano? Teremos que esperar: vai depender de negociações sindicais, inflação e “capacidade orçamentária”, alertou Costa.

Paula Fernandez

Calvin Clayton

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