O Governo de Portugal, do céu ao inferno em apenas seis meses

Cartaz eleitoral do partido Bloco, num bairro popular do Porto. BRAIS SUREZ

Escândalos, desavenças e crise mundial abalam executivo da Costa

07 de outubro de 2022 . Atualizado às 05h00.

O Governo de Portugal iniciou a semana reunido à porta fechada em Algs para definir o Orçamento de 2023. Sem sequer se dar ao trabalho de dar pistas sobre o projeto de lei que deve ser apresentado na próxima segunda-feira à Assembleia da República, o conclave terminou mais bem definindo, e com surpreendente precisão, o manto dos seis meses que o Executivo socialista tem no poder.

Por um lado, reafirmou a falta de transparência que lhe foi atribuída. Por outro lado, apenas o desacordos internos que não param de minar a popularidade e a euforia que geraram a maioria absoluta com que foi eleito num longínquo mês de janeiro. Desta vez, foi um novo confronto sobre o IRC (Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Coletivas) entre o Ministro das Finanças, Fernando Medina, e o Ministro da Economia, António Costa Silva. Este último apenas compartilha com seus colegas a capacidade de gerar polêmica.

É difícil definir se a desconfiança dos portugueses se deve à tendência do governo de dar um tiro no próprio pé ou à crise econômica e política que abala a Europa. A realidade é que, desde que o Executivo tomou posse em março, passou de sua melhor avaliação para sua pior pontuação em três anossegundo pesquisa do jornal diário expresso. 35% dos portugueses consideram que o seu desempenho é mau e 13%, muito mau. Isso contrasta com os 65% que avaliaram positivamente em março, algo não visto desde 2019.


Então, passada a pandemia, a economia crescia e só uma mancha distante surgia no horizonte: a inflação, que acabou sendo desencadeada com a invasão da Ucrânia e trouxe consigo fortes intervenções dos bancos centrais. O que está à vista agora, e não tão distante, é um período de recessão. Em outras palavras, a situação global não é favorável. Mas o Governo não faz a sua parte, com uma falta de jeito inoportuna diante de uma crise que poderia ter sido amenizada com um pouco de canhota.

Ao contrário do que havia prometido, diferentes vozes o culpam por abusar de sua maioria absolutajá que em até oito ocasiões o partido governista ignorou as exigências da oposição para se explicar diante de polêmicas que envolveram diretamente seus ministros.


vários casos

Um dos exemplos mais claros desta posição defensiva ocorreu na semana passada, quando um deputado socialista pediu para anular a intervenção parlamentar de um deputado da oposição. Este apelou à demissão do Ministro da Coesão Territorial, Ana Abrunhosadepois do dia Observador informou que comissões dirigidas pela própria Abrunhosa tinham atribuído fundos europeus à empresa do marido. O ministro negou ter intervindo e só conseguiu aquecer mais a opinião pública com uma coluna intitulada A esposa de César é séria.

Idêntica incompatibilidade entre o cargo oficial e a vida pessoal atormentava o ministro da Saúde, Manuel Pizarro, que assumiu a pasta após a renúncia do antecessor. O problema é que ela o fez enquanto ainda dirigia uma consultoria de saúde que, segundo ele, está em processo de extinção. Pizarro admite sua incoerência, mas suas respostas não satisfazem a oposição nem a opinião pública.


Talvez o caso não tivesse escalado se não tivesse sido enquadrado em um governo que está sob escrutínio. Em agosto, o Ministério da Fazenda contratou Srgio Figueiredo, ex-diretor de jornalismo da TVI, como consultor para avaliar o impacto das políticas públicas. Não ficou claro se era responsabilidade dessa pasta ou se Figueiredo preenchia os requisitos do cargo. Mas a assinatura desencadeou o debate sobre uma possível troca de favores ao ser lembrado que o jornalista havia contratado, em 2015, o atual ministro como comentarista político em seu canal. Figueiredo renunciou ao cargo, mas as dúvidas em relação ao Executivo permaneceram.

Não é preciso retroceder muito mais para ver como outro ministro, desta vez o do Desenvolvimento, foi desacreditado pelo chefe do Executivo, António Costa. Apenas 24 horas depois de anunciar um dos maiores investimentos públicos em décadas para um novo aeroporto em Lisboa, Costa acabou com isso. Com esta decisão bloqueada, a pasta deve enfrentar a privatização da companhia aérea TAP, na qual o Governo acaba de injetar 3.200 milhões de euros.


Neste contexto político e com uma crise como pano de fundo, os portugueses aguardam com atenção os orçamentos de segunda-feira. Talvez seja a última oportunidade para o Governo retomar o controlo de um mandato que, hoje, parece demasiado longo.




Miranda Pearson

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